Apresentação

Em 1934 Paul Otlet publicava o seu “Traité de la Documentation: le livre sur le livre”, que marcou o início do fim de um paradigma custodial e tecnicista nascido com o iluminismo e coroado pelo impacto político, socioeconómico e cultural da Revolução Francesa. De um modo sincrético e, também, político, na ressaca da hecatombe europeia da Grande Guerra, Otlet anunciou uma nova ciência centrada no documento e através dele comprometida com uma Humanidade ligada, pacifista e artífice de um Mundo novo e melhor. O documento já não era apenas o livro impresso, era também uma partitura, um quadro, um memorando administrativo ou técnico, era, em suma, qualquer tipo de conteúdo e mais que um único tipo de suporte. O livro antigo ficava nas bibliotecas patrimoniais e o manuscrito, o dactiloscrito, o pictórico, a película, a fotografia, o fonograma passava a ter cabimento descritivo e valorativo por parte do novo profissional do séc. XX – o documentalista.
Com a revolução tecnológica de meados de novecentos o legado otleano que teve eco no espaço anglo-americano, validou o pioneirismo da dupla belga (Otlet e Lafontaine) e voltou a mostrar que as mudanças de suporte ainda não tinham sido encerradas e que qualquer conteúdo ou informação viria a adquirir novas possibilidades de comunicação. Este fluxo conceitual – documento, informação e comunicação – adensou-se, apesar da cristalização fragmentada dos constructos culturais trazidos pela Modernidade – a Biblioteca, o Arquivo e o Museu. O descompasso entre o modo como a mediação tecnológica torna cada vez mais acessível, a cada um e a muitos, a informação e a forma isolada como esses constructos se mantêm reféns de uma identidade artificial é manifestamente anómalo e tem de ser encarado com lucidez e ousadia.
Um modo de possibilitar esse desiderato é convocar os vários intervenientes do processo de produção documental e os de custódia, sejam entidades produtoras públicas e privadas, sejam Arquivos, Bibliotecas, Museus e gestores de plataformas digitais especializadas ou híbridas, e com todos desenhar diagnósticos amplos e articulados, e buscar soluções congregadoras e avançadas, sob este lema basilar: “Documentos de uns para todos”.
Modesto e despretensioso contributo, estas Jornadas instituem-se como espaço de encontro e de diálogo profícuo e contínuo entre especialistas demarcados e cidadãos insatisfeitos ou inadvertidos, para que barreiras e contradições sejam desfeitas e o sonho do Mundaneum, desfeito entre Guerras, passe, finalmente, da quimera à realidade.

Comissão Organizadora

Alexandra Marques [Arquivo Municipal Alfredo Pimenta]
Antero Ferreira [Sociedade Martins Sarmento]
Armando Malheiro [CITCEM – FLUP]
Emília Nóvoa de Faria [Arquivo Municipal Alberto Sampaio]
Henrique Barreto Nunes [Bibliotecário]